FALSIFICAÇÃO OU “ADAPTAÇÃO JORNALÍSTICA”?

Falsificação ou “adaptação jornalística”?

Eduardo Mackenzie

Por que o Ministério Público, em vez de reconhecer seus erros, optou pela fuga para adiante? Ele pretende rechaçar a demanda que o candidato presidencial Oscar Iván Zuluaga apresentou, porém não utiliza para isso argumentos jurídicos.
“Uma denúncia que apresentamos há 36 horas foi desqualificada, o que significa uma negação ao nosso direito à defesa”, declarou o candidato presidencial pelo Centro Democrático.
Em vez de acudir a arrazoados jurídicos, o Ministério Público lançou um ataque midiático e propagandístico. Disse: “O vídeo que implica Zuluaga é original”. Tudo nessa atitude do Ministério Público convida a duvidar. Essa frase contra-evidente aparece no cabo redigido pela Associated Press, a qual cita como fonte o Ministério Público colombiano. Por sua parte, a revista Semana escreveu: “Ao meio-dia desta sexta-feira o Corpo Técnico de Investigações do Ministério Público (CTI) certificou que o vídeo no qual aparece o hacker Andrés Sepúlveda junto com o candidato do Centro Democrático, Oscar Iván Zuluaga, é original e não está editado”.
Nada disso é exato. O organismo dirigido por Eduardo Montealegre Lynett tenta assim desqualificar as análises de vários experts que demonstraram que o vídeo de Semana havia sido manipulado. O Ministério Público trata de fazer crer que não há nada de irregular no vídeo falsificado e lançado ao público pela revista Semana. O faz mediante uma pirueta: conta que fez analisar por técnicos do CTI “o vídeo autêntico e original arrecadado nos trabalhos investigativos correspondentes”. E que sua conclusão é que esse vídeo “não foi submetido a edição”.
Nossa conclusão: a tese do Ministério Público carece de valor, pois o CTI examinou o vídeo que não era. Em vez de estudar o vídeo oferecido por Semana, estudou outro documento audio-visual e se pronunciou sobre isso. Há ali como um jogo de prestidigitador muito hábil. Perguntamos: nesse outro documento que o Ministério Público diz haver examinado aparece a famosa frase que pretendem encaixar em Oscar Iván Zuluaga? A frase que termina com a palavra “irmão”?
O Ministério Público não diz nada a respeito. A única coisa que sugere é isto: “as defasagens em áudio e vídeo que se indicam podem obedecer à perda de dados no momento de descarregar o vídeo da página web da Revista Semana”. Porém, essa desculpa é inconsistente, pois não se trata de “defasagens em áudio e vídeo”, nem de “perda de dados”. Trata-se, pelo contrário, da inclusão deliberada de frases que não foram pronunciadas durante a gravação clandestina desse vídeo. Tampouco sobre esse ponto o Ministério Público diz nada.
Então, o que aconteceu com o vídeo que Semana difundiu? O Ministério Público responde, alegremente, duas coisas: 1. Que esse vídeo “é diferente do que tem em seu poder” e 2. Que o de Semana “foi adaptado jornalisticamente”.
Vejamos isso. Segundo diz a imprensa, o vídeo de Semana também foi examinado pelo CTI e sua conclusão é assombrosa: trata-se, diz o CTI, “de um material original adaptado jornalisticamente”. Depois houve sim, segundo o CTI, modificação, adulteração do vídeo. O CTI reconhece isso, embora o Ministério Público empregue em seu comunicado um vocabulário muito especial, muito desculpador e dissimulador, ao usar a fórmula de “adaptado jornalisticamente”.
Isso permite-nos dizer que o mesmo CTI constatou que o vídeo de Semana nem é “original” nem “autêntico”, senão que é, ao contrário, “adaptado”.
Adaptar é sinônimo de acomodar, de alterar. Pois adaptar é, segundo Santillana, “fazer com que uma coisa destinada a um determinado fim sirva para outro, ou então que possa ter várias finalidades”.
O vídeo original mostrava que o presidente Santos queria “dar um golpe” nas FARC para relançar sua caótica candidatura, porém essa frase foi adulterada, “adaptada”, segundo o CTI, para que servisse para o contrário: para acusar Oscar Iván Zuluaga de querer organizar “um golpe” contra Santos. Para dar esse giro tiveram que adulterar frases, jogar com vozes, tirar umas palavras a acrescentar outras. Semana cometeu o delito de falsidade em documento privado ao propor esse vídeo como prova de algo.
O mais turvo de tudo isto é que o Ministério Público, apesar do que o CTI diz, trata de tornar invisível a falsificação cometida pela revista Semana – pelo qual essa revista terá que responder ante a justiça um dia -, com o argumento de que ela não falsificou nada, senão que limitou-se a fazer uma “adaptação jornalística”.
Dessa maneira, O Ministério Público Geral trata de fechar prematuramente toda a investigação judicial pelas falsificações cometidas por Semana, ao difundir um vídeo no qual foi modificada a frase pronunciada pelo candidato Oscar Iván Zuluaga para convertê-lo, mediante esse ato ilegal de falsificação, em uma pessoa suscetível de ser detida pela polícia, horas antes do primeiro turno da eleição presidencial.
O Ministério Público lançou sua nova versão um dia depois que Jaime Granados, o advogado do candidato presidencial Oscar Iván Zuluaga, demonstrasse plenamente que o vídeo no qual aparece seu cliente é uma montagem e foi adulterado pela citada revista. Jaime Granados entabulará uma demanda penal ante o Ministério Público.
Dias antes, várias análises realizadas por especialistas constataram que o vídeo que vincula Oscar Iván Zuluaga com o senhor Andrés Sepúlveda continha adulterações evidentes. Andrés Guzmán, um especialista em cibernética forense, constatou isso e explicou que o vídeo em questão “é uma montagem”. Guzmán, gerente da empresa Adalid Corporation, explicou a Blu Radio que o vídeo analisado “em princípio parece genuíno”, porém que ao submetê-lo a processos especializados deixa claro que é “uma montagem”. Guzmán sublinhou que embora a edição do vídeo “seja fantástica, em uma análise preliminar [...] conseguimos determinar que se trata de um vídeo adulterado”. O expert, que em várias ocasiões trabalho para o jurista Jaime Granados, encontrou “17 incongruências de edição” no vídeo proposto à opinião pública pela revista Semana.
É evidente que a afirmação do Ministério Público no sentido de que “o vídeo que implica [Oscar Iván] Zuluaga é original”, está destinada a confundir os eleitores e contém uma tácita acusação injusta e indevida contra Oscar Iván Zuluaga. Lançar tal acusação temerária – pois não foi seguida de uma decisão da polícia judicial – dois dias antes do primeiro turno, constitui uma tentativa de impedir que os cidadãos escolham livremente seu candidato. É uma grave intromissão do Ministério Público na política e em uma campanha eleitoral decisiva para a Colômbia.
Não é certo que Oscar Iván Zuluaga esteja “implicado” em algo. Ele não está implicado em nada. Que o Ministério Público e o presidente Juan Manuel Santos queiram vê-lo “implicado” em algo como um criminoso, e despojado de sua condição de candidato presidencial, é outra coisa. A operação lançada pelo Ministério Público abre muitas interrogações sobre a serenidade e imparcialidade desse organismo tão importante da função pública.
Nota do autor:
* Ver a análise da firma Adalid Corporation aqui: www.youtube.com/watch?v=ZyranVo9vnE&sns=tw
Tradução: Graça Salgueiro
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