A PERVESÃO FEMINISTA DA ÓPERA CARMEM

 

CARMEN

Jacy de Souza Mendonça

Li nos jornais que a belíssima ópera Carmen, do compositor francês Georges Bizet, acaba de ser encenada, na cidade de Florença/Itália, com uma modificação cênica essencial. Em vez de ser assassinada a facadas por seu amante, no final do drama, é ela que, ameaçada, saca de um revolver e o fulmina. O drama vira comédia. Tudo a pretexto de modernizar a peça e adequá-la à tendência atual de reação à violência contra mulheres.

Um desrespeito à última obra de Bizet, justificado pela modernização e incluído no movimento contra o feminicídio. Vamos então começar nossa reflexão por esse ridículo nomen juris, neologismo criado pelos se-dizentes modernistas.

Ninguém mata uma mulher pelo simples fato de ela ser mulher há sempre um fato motivador. É sabido que predomina, entre as razões para esse tipo delituoso o ciúme resultante de uma paixão não correspondida ou contrariada. Pois é exatamente este o tema da ópera Carmen. Ela, uma bela cigana sensual e volúvel (seus amores não duram mais do que seis meses) conquista um soldado, Dom José, que é tomado por uma paixão demoníaca. Como soldado, tenta manter a disciplina castrense em paralelo com a fruição do amor da encantadora cigana.

Ela, porém, odeia disciplina, adora a liberdade sem limites e, por isso, rechaça-o e troca-o por um toureiro de Sevilha. Dom José, desesperado, tenta reconquistá-la e quando se convence de que isso era definitivamente impossível, no momento em que ela pretende correr para os braços do novo amante, alucinado, trespassa-a com uma faca e fica chorando, com o cadáver nos braços, aguardando que o levem preso. Não a matou, portanto, por ser ela mulher, mas por ser o objeto inatingível de sua ensandecida paixão matou-a por ser rejeitado e trocado por outro.

Além disso, a pretendida versão modernizada não rima com os costumes da época e da gente cigana, que se protegia costumeiramente com uma navalha, não com revólver.

A Carmen de Bizet não é, portanto, um modelo de feminicídio, como querem esses pretensos modernistas. Aliás, se todos os crimes contra mulher são feminicídios, todos os crimes contra homens deveriam ser hominicídios, o que simplificaria todos os Códigos Penais do mundo, que deveriam passar a tipificar apenas essas duas formas criminais.

Mas não sei o que seja mais ridículo: se um Código Penal com apenas esses dois tipos delituosos ou se esse desrespeito à produção artística, visando a ajustá-la a um modernismo linguístico. Seguindo a lógica da correção do libreto, como a palavra ópera é feminina, a violência contra a ópera de Bizet seria mais uma forma de feminicídio...

Enfim, peço perdão a Georges Bizet pelo mal causado por esses modernistas endoidados à sua belíssima filha que, embora nascida há 140 anos é desde então objeto de efusivos aplausos em todo o mundo, assassinada a facadas, não a disparo de arma de fogo. Ela agora está sendo novamente assassinada, desta vez com uma canetada alucinada.