O VERDADEIRO CAPITALISMO POPULAR
 

 

Dias atrás, vi-me na contingência de abastecer minha casa no agitado comércio
de toda sorte e de serviços, na comunidade chamada  Tijuquinha, onde nordestinos, principalmente paraibanos, empreendem e trabalham duro para sobreviver. E, não foi a primeira vez, que lá fui às compras. Voltei muito satisfeito com a qualidade e preços das verduras, frutas e carnes, melhores do que os dos supermercados, onde o freguês é apenas mais um a entrar nas filas dos caixas. Por isso, me lembrei do artigo que escrevi em 2005 e que acabou sendo mencionado por diversas publicações comunitárias do Rio.
Faltou ainda dizer, que nas comunidades com maioria nordestina, o tráfico de drogas é punido de forma exemplar... As igrejas,  da católica às evangélicas e aos
espiritismos, lá estão firmes em  seus ensinamentos, desafiando as amoralidades.

O Capitalismo Popular em Marcha

Escrito por  Jorge Geisel (em 2005)

Convenci-me  de que há uma luta capitalista do nosso povo. E que está fazendo desabrochar a liberdade.

"Não há forma de governo com a prerrogativa de ser imutável. Nenhuma autoridade política, tenha sido criada ontem ou há mil anos atrás, está livre de ser suprimida em 10 anos ou amanhã. Nenhum poder, por mais respeitável e sagrado que seja, está autorizado a encarar o Estado como sua propriedade. E quem pensar de outro modo é um escravo."
The Revolution of America by the Abbé Raynal (Londres, 1781)
 
 

Abbé Raynal foi um escritor de grande visão, pois além de prognosticar a Revolução Americana, ainda previra as mesmas circunstâncias para a Capitania de Minas Gerais, sacrificada com o lançamento do tributo da derrama... Fossem os separatistas mineiros aguerridos e menos inconfidentes em relação à própria causa,nossa História poderia ter desembocado num século 21 mais decente. Conclusão: continuamos empatados na época de Barbacena, aquele conservador metropolitano que assinou a sentença do enforcamento do alferes Silva Xavier e que deu nome ao município fluminense aonde está  situada a Academia Militar das Agulhas Negras.
 
Tudo isto veio à tona em minha mente, quando tentava fazer pequenas obras domésticas, na casa de meus filhos, onde moro em velhice usufrutuária. Descobri coisas incríveis neste Rio de Janeiro. Primeiro, que o comércio carioca é mal servido de vendedores possivelmente, de gerentes quiçá, de empresários. A má atenção, o desconhecimento dos produtos, o deboche estalado nas expressões faciais dos que deveriam atender consumidores de uma metrópole que se intitula como porta de entrada do país, deixaram-me pessimamente impressionado.
 
Entretanto, não há como um dia após o outro. Acabei indo fazer as compras nas comunidades de pessoas consideradas excluídas, com seus comércios instalados na informalidade capitalista de um povo desesperado por trabalho e dinheiro. Além da rapidez e gentileza dos atendimentos, ainda se dão ao luxo de orientar os clientes no uso dos melhores produtos...
 
Senti no bolso e no estado de espírito, a realidade de duas ordens econômicas distintas, dentro de meu país. Uma, a tangida pelo fascismo celetista e vergastada pelos tributos abusivos e inclementes.Outra,a libertária,nascida das sucessivas crises de delinquência do Estado, do sábio diagnóstico popular sobre a inviabilidade fiscal e regulamentadora das instituições formais na produção de bens e serviços.
 
Me convenci de que há uma luta capitalista do nosso povo. E que está fazendo desabrochar a liberdade, a conseqüente auto-determinação, um sentimento de auto-estima livre dos símbolos que aprisionavam sua identidade individualista à servidão do Estado castrador.
 
Ideólogos ponham suas barbas de molho! Não há espaços para ideologias socializantes nas mentes dos que invadem terras públicas e desperdiçadas, para fugir do engessamento legal que mantem o regime do trabalho e do capital em becos sem saída. Eles querem ser proprietários, nem que seja na marra. Os excluídos do país, reúnem-se nas favelas metropolitanas, em busca de uma vida melhor. E sabem, acima dos acadêmicos, por instinto de sobrevivência, que isto só será possível se for através da sociedade de confiança, existente em suas comunidades autônomas,  economicamente operacionalizada pelos resultados da mais velha profissão do mundo: a da compra e venda, sem o ônus do Estado enxerido.