TERRORISMO ISLÂMICO: A FALÁCIAS DOS LOBOS SOLITÁRIOS
 

 

O lobo solitário e a alcateia jihadista.

Ricardo Gustavo Garcia de Mello

O termo Lobo solitário é uma contradição, o lobo é um animal naturalmente gregário que mesmo vivendo isolado, atua em nome da alcateia ou grupo. Tal termo ilógico, lobo solitário, é utilizado por diversos serviços de inteligência e reiterado de modo acrítico pela mídia. Para, explicar a existência de indivíduos terroristas que não, pertencem às organizações com cadeias de comando. O fato de um indivíduo isolado praticar ações terroristas sem o suporte técnico, militar e financeiro de uma organização jihadista não faz dele um lobo solitário, mas um lobo solidário. 

O indivíduo jihadista é um lobo em busca do seu grupo - sua ação não tem por motivo os seus próprios interesses, e o seu objetivo é provocar um estado de pânico generalizado, uma fobia social.  O sentido da sua ação está no martírio. Ou seja, vir-a-ser um Mártir de Allah ou Shuhadá.  Tal sentido é o mesmo sentido que os militantes de grandes organizações Jihadistas conferem às suas ações.  Apesar do “lobo solitário” não estar fisicamente ligado às grandes organizações jihadistas, ele está ligado ideologicamente - ambos pretendem destruir a civilização Ocidental e expandir o Islam.

Para melhor compreender o martírio (Shuhadá), cabe compreender o sentido do termo Jihad e, citar algumas passagens das Suratas, (capítulos) do livro sagrado do Islam, o Corão.

O muçulmano (mumin), o submisso, deve viver na Jihad. O termo jihad significa esforçar-se para caminhar na senda de Allah, o caminho de Allah é estreito e árduo e não bastam orações para trilhá-lo. É também necessário um esforço para conservar e expandir o Islam no mundo. Isto pode significar matar e morrer pelo Islam.

Militância traduz aqui o célebre conceito de jihad [...] Traduzir por “guerra santa”, como é feito com frequência, deixa de lado a etimologia, que implica a ideia de “esforço”. De outra parte, isso restringe o sentido do que é um esforço global da comunidade. [...]  “ Militância”, portanto, parece-me apresentar uma dupla vantagem: de uma parte, traduz os dois aspectos do termos, de outra faz repercutir o mesmo sentido  “militar”. [BRAGUE, 2010, p.175]

As duras provas da vida, em especial as guerras, servem para separar o muçulmano (mumin) do idólatra (kafir) e, sobretudo do hipócrita (munáficun). A idolatria (chirk) e a hipocrisia (nifaq) são os descaminhados do homem que levam o ser humano a se tornar o combustível do inferno.

Na 72ª Surata Al Jin (Os Gênios): “E, entre nós, há submissos, como os também há desencaminhados. Quanto àqueles que se submetem (à vontade de Deus), buscam a verdadeira conduta. Quanto aos desencaminhados, esses serão combustíveis do inferno.” [SURATA 72:14-15]

A jihad não é, só um esforço diário e pessoal de cada muçulmano, mas a resistência e a propagação do Islam por meios violentos, ou seja, a guerra. A guerra é parte constitutiva do Islam, a pregação (Dai) que deveria ser uma ação de difusão pacífica da fé, é considerada uma continuação da guerra por meios psicológicos e culturais.

“[...] o que singulariza o Islam não é a pretensão à universalidade, mas sim os meios de atingi-la, que incluem a guerra. É a necessidade da guerra que implica que a direção da comunidade deva ter uma dimensão política. A política está fundada na guerra, não na manutenção da paz.” [BRAGUE, 2010, p.177]
Na guerra militar, uma vez alcançado o objetivo estratégico de destruição do exército inimigo e ocupação do território, se chega à vitória. Mas, a jihad é uma luta mais complexa, constituída de muitas frentes e trincheiras, em certo sentido - a jihad pacífica é a continuação da guerra por meios psicológicos e culturais.

No 4º Surata “AN NISSÁ” (AS MULHERES)
“Que combatam pela causa de Deus aqueles dispostos a sacrificar a vida terrena pela futura, porque a quem combater pela causa de Deus, quer sucumba, quer vença, concederemos magnífica recompensa.” [SURATA 4: 74]

O empenho máximo pela jihad se resume no martírio (shuhadá). O mártir é a pessoa que se sacrificou pelo Islam, cumprindo à risca a sua missão com Allah. O martírio (shuhadá) é a maior prova de fé que resulta na máxima recompensa divina. É mais importante morrer pelo Islam do que viver uma vida pacífica e sem pecados - o mártir tem todos os seus pecados e crimes perdoados.

O mártir vive uma vida no além-túmulo ao lado de Deus e na memória dos vivos como um homem modelar que deu a vida pela causa maior, Allah (Deus). O mártir é o homem modelar do Islam.

Na 2ª Surata AL BÁCARA (A VACA)
“Ó fiéis, amparai-vos na perseverança e na oração, porque Deus está com os perseverantes. E não digais que estão mortos aqueles que sucumbiram pela causa de Deus. Ao contrário, estão vivos, porém vós não percebeis isso. [SURATA 2:153-154]

“Certamente que vos poremos à prova mediante o temor, a fome, a perda dos bens, das vidas e dos frutos. Mas tu (ó Mensageiro), anuncia (a bem-aventurança) aos perseverantes - Aqueles que, quando os aflige uma desgraça, dizem: Somos de Deus e a Ele retornaremos –   Estes serão cobertos pelas bênçãos e pela misericórdia de seu Senhor, e estes são os bem encaminhados.” [SURATA 2:155-157]

Nestas passagens sobre o martírio (shuhadá) está clara a consciência que Muhammad (570-632 d.C), profeta e fundador do Islam, tinha da guerra ampliada, ou seja, da guerra que compreende além dos recursos econômicos e militares, os meios psicológicos e culturais de ação. Ao demonstrar que as desvantagens militares e baixas no islam podem ser traduzidos como prova divina –a luta contra a idolatria (chirk) e a hipocrisia (nifaq). Sendo a morte, ou melhor, o martírio uma prova da resistência cultural e psicológica dos muçulmanos contra os inimigos, ao demonstrar ter disposição para lutar e morrer em nome de Allah (Deus). Logo, as baixas não são interpretadas como derrotas, mas como uma prova de fé e de resistência política.

Devemos tomar nota da guerra psicológica e cultural, ou seja, das dimensões psicológicas e culturais da jihad.  E não, ficar se apoiando num termo ilógico como “ lobo solitário” para raciocinar.  Por mais, que o indivíduo terrorista não participe de um plano estratégico de uma grande organização jihadista, isto não significa que a sua visão de mundo foi o resultado espontâneo de viver na civilização Ocidental.  As ideias não brotam no cérebro dos indivíduos e, nem caem do Céu. 

Segundo Antonio Gramsci (1891-1937): “As ideias e as opiniões não “nascem” espontaneamente no cérebro de cada indivíduo: tiveram um centro de formação, de irradiação, de difusão, de persuasão, houve um grupo de homens ou até mesmo uma individualidade que as elaborou e apresentou na forma política de atualidade.” [GRAMSCI, 2011, p, 259]

As ideias radicais que embasam o terrorismo islâmico não brotaram na cabeça dos indivíduos, houve um conjunto de Imanes (guias espirituais) que formularam tais ideias e órgãos que as difundiram e um grupo ou massa de pessoas que recepcionaram acriticamente tais ideias. Para compreender o terrorismo Islâmico temos que compreender a circulação das ideias - a formulação, difusão, recepção e aceitação de tais ideias.  Mas, este precioso trabalho de inteligência está interditado pelo politicamente correto que prefere ver o Ocidente perecer do que se defender.

FONTES

Cel. Luis Alberto Villamarín Pulido, Os Lobos (nada) solitários do ISIS e da Al-Qaeda, publicado no dia 16 de Junho de 2016. Tradução de Graça Salgueiro.
BRAGUE Rémi, Mediante a Idade Média: filosofias medievais na cristandade, judaísmo e no islam. Ed. Loyola, São Paulo, 2010
CARVALHO Olavo de, As garras da Esfinge: René Guenon e a islamização do Ocidente, Verbum, Ano I, Número 1 e 2, Julho-Outubro de 2016 http://www.olavodecarvalho.org/semana/julhoverbum.html
CARVALHO, Olavo de, Influências discretas, 8 de maio de 2008,  Jornal do Brasil
EL-HAYEK Samir, Alcorão Sagrado. São Paulo, Ed. Marsam, 1994.
DE PAOLA, Heitor. O Eixo do Mal Latino-americano e a Nova Ordem Mundial. 2 ª Ed. Observatório Latino, São Paulo, 2016.
DE PAOLA Heitor, Subsídios para entender o Islam (e as bases de sua diplomacia I, 28 de junho de 2010. http://www.midiasemmascara.org/artigos/religiao/11186-subsidios-para-entender-o-islam-e-as-bases-de-sua-diplomacia-i.html
DE PAOLA Heitor, Subsídios para entender o Islam (e as bases de sua diplomacia) II, 01 de Julho de 2010. http://www.midiasemmascara.org/artigos/religiao/11197subsidios-para-entender-o-islam-e-as-bases-de-sua-diplomacia-ii.html
DE PAOLA Heitor, Subsídios para entender o Islam (e as bases de sua diplomacia) III, 22 Julho de 2010. http://www.midiasemmascara.org/artigos/religiao/11266-subsidios-para-entender-o-islam-e-as-bases-de-sua-diplomacia-iii.html
GRAMSCI, Antonio. Antologia . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a política e o Estado moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
PHILIPS Abu Ameenah Bilal, Os Fundamentos do Tawheed: o monoteísmo puro. Tradução para o português: Leila Ali Tassa e Revisão da Tradução: Samir El Hayek, 2008, Brasil, Site: ISLAM.BR