TERÁ HAVIDO MANIPULAÇÃO NA ELEIÇÃO COLOMBIANA?
 

 

Manipularam a consulta da Coalizão por Colômbia?

Eduardo Mackenzie

O aparente triunfo do Centro Democrático (CD) do dia de ontem (11.03) nas eleições legislativas não deveria nos dispensar de uma reflexão sobre o que ocorreu nessa jornada em particular, pois nem tudo está claro nem é alentador. O entusiasmo dos seguidores de Iván Duque pelas cifras que a Registradoria atribui a ele na consulta da “Coalizão por Colômbia” (Marta Lucía Ramírez, Alejandro Ordóñez, Iván Duque), ocultou por algumas horas uma realidade inquietante: o CD será a primeira força política dentro do Senado, porém não terá uma maioria absoluta, e nem sequer terá uma bancada que possa orientar confortavelmente o trabalho legislativo do novo período.

É muito estranho que após os catastróficos oito anos de governo de Juan Manuel Santos, e do agravamento de tensões sociais e políticas que gerou sua linha pró-chavista de capitulação ante as FARC, o eleitorado não tenha exercido o voto de castigo que mereciam as formações que apóiam Santos.

Os resultados dão a impressão de que o eleitorado está satisfeito com Santos, embora os índices de popularidade dele sejam baixíssimos.

As cifras que a Registradoria deu refletem o voto cidadão ou são as cifras que esse organismo quis dar à opinião pública?

A pergunta é legítima à luz do que ocorreu ontem.

A espetacular anomalia do esgotamento das tarjetas (e sua substituição por fotocópias) destinadas aos cidadãos que iam escolher um dos três candidatos de centro-direita, gerou uma onda de pânico em muitas cidades. Milhões de eleitores viram que a Registradoria, quer dizer, o Estado Colombiano, tinha sido incapaz ou não quis garantir a pureza da consulta dos partidos que haviam ganhado o plebiscito de outubro de 2016 que rechaçou o acordo Santos-FARC.

Muitos estimam que a ausência dessa tarjeta anunciava uma fraude massiva que iria afetar não só a designação do candidato presidencial da Coalizão por Colômbia, mas também a reduzir a força parlamentar do uribismo e dos partidos de oposição. Alejandro Ordóñez chegou a solicitar uma observação internacional, pois o que estava ocorrendo era “um atentado à democracia”.

Durante boa parte da jornada predominou esse clima de terror. De repente, no final da tarde, quando a Registradoria anunciou que Iván Duque poderia ganhar a consulta, o Centro Democrático abandonou seus protestos e tudo entrou em ordem. Duque recebeu o respaldo de Ramírez e Ordóñez, e muitos acreditaram que a via estava aberta para ganhar a eleição presidencial em maio, desde o primeiro turno.

Porém, o que ocorreu em 11 de março deveria nos chamar à reflexão. O esgotamento cedo das tarjetas de consulta mostra como a Registradoria pode transtornar e até perturbar uma jornada eleitoral e, em que pese tudo isso, num instante pode levar os partidos afetados a mudar de atitude apenas com o anúncio de umas cifras. Essa demonstração de poder da Registradoria é inquietante. Isso reflete de alguma maneira a debilidade dos partidos ante o Estado santista, embora sejam relativamente fortes em matéria de votos.

No dia seguinte, o principal partido de oposição parecia ter esquecido o que havia vivido horas trás. Os brotos de inconformidade que haviam começado em Bogotá se estenderam rapidamente a Medellín e outras capitais, quando os eleitores souberam que as tarjetas haviam se esgotado e que não poderiam votar na consulta. Ante os protestos espontâneos nas ruas e nas redes sociais, a Registradoria anunciou que com fotocópias resolveria a ausência dessas tarjetas. O registrador Juan Carlos Galindo teve que admitir que havia penúria de tarjetas em Bogotá, Montería, Medellín, Barranquilla, Manizales e Cúcuta, antes de dar a ordem de usar fotocópias e “suspender o sistema biométrico”.

Isso aumentou a angústia dos que temiam, com razão, que essas fotocópias terminariam sendo anuladas. “A tarjeta original conta com um código de barras que legitima sua autenticidade. A fotocópia invalida a garantia de legitimidade e pode ser usada para um tipo de fraude eleitoral”, escreveu um entendido em uma mensagem que milhares de pessoas receberam.

A Registradoria informou que havia mandado imprimir 󈬎 milhões de tarjetas, 15 milhões para a Coalizão por Colômbia e 15 milhões para a denominada Inclusão Social (IS) (Petro-Caicedo)”. Na realidade, os votos utilizados pela Coalizão por Colômbia não chegaram aos seis milhões. Os de IS utilizaram 2.904.000 tarjetas. Aonde foram parar os outros 21 milhões de tarjetas?

“Estão nos roubando as eleições”, exclamou um eleitor em Medellín, no meio de uma multidão que denunciava a gritos a penúria. Luis Alfredo Ramos interveio para dizer que era “uma infâmia atropelar o direito que os cidadãos têm de votar”, antes de acusar a Registradoria e o governo de ter organizado “o caos” das tarjetas para “prejudicar a grande consulta”.

A conservadora Marta Lucía Ramírez exigiu a renúncia de Santos. “Presidente Santos, escreveu, fizemos uma campanha limpa, com propostas. Em condições muito desiguais frente aos demais. O senhor não honrou seu dever como Chefe de Estado. O senhor e o ministro que negou os recursos à Registradoria e o próprio Registrador, que não advertiu a Colômbia a tempo sobre o risco que tínhamos hoje, não estão honrando esta democracia. Os senhores três deveriam renunciar hoje mesmo”.

Alejandro Ordóñez Maldonado lançou um chamado por twitter: “Faltam garantias se não há tarjetas para a Grande Consulta por Colômbia. Solicito aos colombianos que não abandonem os postos de votação. Façam respeitar seu direito”. Um pouco depois detalhou: “Estou no @MinInterior solicitando que se amplie por duas horas a jornada eleitoral. Sem tarjetas para a Grande Consulta por Colômbia vulneram-se as garantias eleitorais. Já havíamos advertido ao governo”.

Tomás Uribe Moreno, filho do ex-presidente Álvaro Uribe, escreveu: “Esgotam-se as tarjetas pela Grande Consulta. Santos se elegeu com engano, se re-elegeu com corrupção e se despede com fraude”. Outro eleitor assinalou: “Acabaram-se as tarjetas da consulta por Colômbia em Medellín, Bucaramanga e em Corferias de Bogotá, o maior centro de votação da Colômbia. Isto é uma fraude. As pessoas estão indignadas. Isto está ficando feio. Há notícias de quem em Miami também se acabaram as tarjetas da consulta da direita”.

O ex-presidente Uribe pediu para votar mediante fotocópias e advertiu: “Temos uma emergência em muitas cidades da Colômbia”. Em 19 de fevereiro passado, com efeito, a Registradoria havia redigido uma instrução para os jurados “em caso da utilização de tarjetas eleitorais em fotocópias”. Por que a Registradoria não tomou medidas para evitar semelhante ridículo? Alguém queria sabotar a oposição e havia preparado esse golpe? Ou essa desordem era para ocultar outras manobras?

Desse grave incidente devemos tirar uma lição: as consultas dos partidos, sejam abertas ou não, devem ser feitas pelos partidos, sem oferecer ao Estado a possiblidade de se imiscuir nesses atos privados. É o que fazem os partidos dos países desenvolvidos. Para isso, claro, os partidos devem ter uma certa força orgânica, um aparato e algumas finanças. Na Colômbia, os partidos são movimentos de opinião sem fortes maquinarias. Por isso lhes parece normal acudir ao Estado para que este lhes imprima as tarjetas, se encarregue do escrutínio e dê as cifras que quer, sem um controle estrito dos partidos interessados. Os resultados dessa negligência estão à vista.

Obviamente, a alterada consulta não será feita de novo, embora isso fosse o melhor, e muitas perguntas ficarão sem resolver. Por que a brecha tão grande entre Duque e Ordóñez quando os mítines que eles realizaram eram comparáveis? Porque Ordóñez é católico? Essa defasagem reflete o estado da opinião pública ou é uma cifra artificial? São perguntas que ficarão no ar, queiram ou não os atores. Como seja, Iván Duque voltou a sair airoso de certame acidentado. Ninguém esquece que ele saiu da condição de pré-candidato graças a algumas misteriosas sondagens de opinião pública e que não houve voto das bases.

Oa dirigentes da Consulta por Colômbia passaram a uma fase de euforia depois de haver gritado o dia todo que lhes estavam roubando a eleição. Conformaram-se com as cifras da consulta e não se perguntam por quê Duque obteve cinco milhões e meio de votos, segundo alguns meios de comunicação, enquanto que o CD obtém uma diminuição de sua bancada senatorial, que passou de 20 para 19 cadeiras. Se somam-se os votos do CD para Senado e Câmara de Representantes, os votos obtidos por Duque são superiores em um milhão e meio. Não há aí uma contradição? Isso deve-se ao fracionamento dos partidos?

Alguns comparam as cifras obtidas por Duque e Petro nas consultas. Deduzem que Duque ganhará de Petro na eleição presidencial. Entretanto, a lógica política não se reduz a uma aritmética de base. Ao não haver o voto de castigo contra os partidos que apóiam Santos, eles conservam uma margem de manobra considerável na eleição presidencial. O pesadelo da eleição de 2012 volta a se insinuar. O espectro de um escrutínio presidencial desequilibrado por um desfuncionamento brutal e inesperado, que provoque a desordem e o pânico, está presente agora nos espíritos de muitos cidadãos.

O bloco de esquerda que Gustavo Petro trata de forjar poderia incluir amplos setores do Partido Liberal e até do Partido Conservador, sem falar das formações mais extremas que fazem parte ou não da “unidade nacional” santista. Isso obriga o CD a procurar eleitores em outros partidos mediante uma política de alianças audaz que poderia ir em detrimento de seus princípios e perspectivas, com uma perda de eleitores habituais, sobretudo ante o espinhoso tema da “implementação” dos acordos Santos-FARC. O momento não é pois de triunfalismo ingênuo, senão de análises e de estudo escrupuloso do que ocorreu neste 11 de março.

Tradução: Graça Salgueiro