HISTÓRIAS DA MAGISTRATURA
 

 

SÓ RINDO!

Jacy de Souza Mendonça



Ainda estudante, precisava trabalhar para não continuar pesando sobre as finanças de meu velho, querido e saudoso pai, que sustentava e educava uma família de nove filhos com o salário de garçom. Além do que, eu sonhava montar minha família e viver a vida forense. Por isso, ainda na 3ª série da Faculdade, empreguei-me como datilógrafo em um escritório de advocacia, percebendo o salário mínimo oficial, mas ganhando experiência.

Guardo poucas lembranças daquela época. Lembro-me, porém, de que um dos primeiros juízes com os quais tive contato era muito atarefado, muito rápido e muito prático, por isso, ao receber uma nova petição mandava logo ouvir a parte contrária, antes de ler o requerimento. Em seguida, lendo o posicionamento das duas partes, estruturava a sequência do processo.





Um advogado protocolou uma petição mais ou menos assim:



Doutor Juiz de Direito

FULANO, nos autos da ação de despejo ajuizada contra BELTRANO, vem dizer a Vossa Excelência que faleceu no dia .../.../..., razão pela qual requer o adiamento da audiência na qual está prevista a tomada de seu depoimento pessoal.

E.D.

Como de costume, o magistrado, sem ter lido o pedido, determinou que fosse ouvida a parte contrária, que eu representava. Recebi os autos e, absolutamente perplexo, expressei-me mais ou menos assim:





Doutor Juiz de Direito

BELTRANO, nos autos da ação de despejo ajuizada por FULANO, intimado a pronunciar-se sobre o despacho de fls., vem dizer a Vossa Excelência não ter dúvida sobre o falecimento do requerente, uma vez que ele mesmo confessa. Quanto à pretendida tomada do depoimento pessoal dele, requer seja expedida carta rogatória a São Pedro, a fim de que este possa providenciar a realização do ato.

E.D.

Tive a oportunidade de escutar as gargalhadas do magistrado.